A Literatura possível nas redes sociais: entre Rupi Kaur a Caroline Calloway

14-08-2022

Em 2018, foi lançado o artigo que viria a oficializar a rutura entre a poesia tradicional e o novo estado da poesia moderna. “The Cult of the Noble Amateur,” escrito pela poetisa britânica Rebecca Watts, serviu como catalisador para o debate no espaço literário online acerca da fogosa repugnância mútua entre estas duas fações da Literatura. Watts aponta, principalmente, para o mais recente movimento literário instaurado na Internet – a infame instapoetry –, e para as editoras tradicionais que permitem a publicação do que Rebecca admite ser “a difamação pública das relações intelectuais e rejeição do ofício” [“the public denigration of intellectual engagement and rejection of craft”].

Sendo dificilmente um tópico de pleno debate, a verdade é que instapoetry define a experiência literária no ciberespaço da segunda década do século XXI, mas não tem ainda uma definição fixa, nem um Manifesto ao qual nos possamos agarrar. Apesar de a sua forma poder ser facilmente reconhecida, temos nas nossas mãos um objeto maleável e desintegrado — um aspeto que, na verdade, é tão bizarramente comum à maior parte dos fenómenos da internet.

Não obstante, devido ao seu alastramento incendiário, este movimento começa lentamente a aparecer como objeto de estudo nos fóruns académicos. Com efeito, o E-Dicionário de Termos Literários , a maior plataforma dicionarística de termos literários em língua portuguesa, define instapoetry tão simplesmente como uma “forma poética digital criada por utilizadores do Instagram”. Se se fizer uma pesquisa menos comprometida na Wikipédia poder-se-á aceder a um resumo que define este movimento como “um estilo de poesia que surgiu como resultado das redes sociais […], mais comumente no Instagram, mas também em outras plataformas”. 

Facto é que esta característica digital é inescapável numa possível aceção do que instapoetry pode ser: a sua principal característica é ter nascido como consequência das redes sociais. A estrutura destes poemas apresenta-se adaptada aos constrangimentos impostos pelas suas configurações. Por esse motivo, é imperativo fazer a distinção entre o poeta que escreve para as redes e o poeta que instrumentaliza as redes sociais como um meio de divulgação, sem comprometer o resultado final do poema.


De qualquer forma, a poesia que é escrita especificamente para caber num retângulo no nosso feed é facilmente reconhecida. A sua forma deliberadamente específica e dolorosamente simples, foi recebida numa onda de controvérsia e discordância inevitáveis. Mas, à partida, as características que edificam estes poemas não são contraditórias com o que eles se propõem a ser e a representar. 

É uma receita simples: extensão de uma ou duas estrofes (cujo caráter célere é decisivo se estes poemas se quiserem encaixar numa imagem publicada no Instagram, ou nos 280 caracteres permitidos no Twitter, etc); a linguagem usada é também leve e quotidiana, os termos são, por norma, acessíveis, de fácil compreensão (o que confere, muitas vezes, para os inimigos deste tipo de poesia, um caráter raso aos poemas); e, por último, os temas explorados ao longo dos poemas, raramente divergem entre os diferentes poetas inseridos neste espaço. Trata-se, por exemplo, o amor (ou a desilusão amorosa), ou dores de crescimento (físicas ou não).

Influencers da Poesia

É impossível falar sobre este subgénero sem fazer menção à sua principal figura, talvez até a pessoa responsável pelo boom da instapoetry: a poetisa canadiana Rupi Kaur. Descrita pela revista Fashion Magazine como a “pop star of poetry”, é autora de três coleções de poesia que se tornaram best-sellers, um especial de poesia na plataforma de streaming Amazon Prime, e uma tour mundial que terá começado em inícios de maio de 2022 e que deverá acabar em dezembro do mesmo ano, colecionando ainda cerca de 4,5 milhões de seguidores no Instagram.

Em sua defesa menciona-se que o seu sucesso nunca poderia ter acontecido tradicionalmente, sem as ferramentas que a Internet lhe permitiu usar. E quanto a isso existe uma verdade indubitavel: o caráter acessível e democrático da Internet abriu portas que estariam, fechadas nas mais variadas áreas. Seria quase impossível pensar numa realidade em que uma poeta mulher não-caucasiana fosse autora de obras que se tornassem canónicas e êxitos instantâneos se ainda existisse apenas o mundo literário tradicional. 

Contudo, no ano de 2015, a meio da segunda década do século XXI, Kaur fez tremer o mundo literário, publicando, autonomamente, a sua primeira coleção, Milk and Honey, que permaneceu na lista de best-sellers do New York Times durante cerca de 41 semanas. E esta nova realidade parece ter vindo para ficar.


A sinopse oficial de Milk and Honey (Leite e Mel, em português) é que a obra se trata de “uma coleção de poesia e prosa acerca de sobrevivência. Acerca da experiência de violência, abuso, amor, perda e femininidade”. Tendo em mente a receita poética anteriormente referida, não é incoerente que outras obras de outros instapoets tenham sinopses semelhantes. 

The Princess Saves Herself in This One (2015), de Amanda Lovelace, é descrito como uma exploração da “vida e de todo o seu amor, perda, pesar, cura, empoderamento e inspirações Já Plum (2017), de Hollie Mcnish, apresenta-se como um livro: “ sobre crescer, sobre culpa, carne, fruta, amizades, trabalho e descanso e [sobre] a urgente necessidade de encontrar uma voz para os poemas que irão, de alguma forma, fazer todo o glorioso motim da sua justiça”. 

A acessibilidade da linguagem e da mensagem é uma característica de extrema importância para estes poetas e os seus leitores. Talvez ainda mais para os leitores. É esperado que os textos sejam uma reflexão do autor, das suas experiências, principalmente da sua dor e do seu processo de recuperação. É preciso contar uma história e esta tem de ser o mais honesta possível. A tentativa de tornar a poesia mais abrangente, passa também pelos temas: o ponto fulcral deve ser empoderamento, o que implica trauma e sobrevivência e recuperação, porque tudo isto é o que, no fundo, nos reconcilia uns com os outros. Queremos conectar-nos através das nossas dores e perdas mútuas. Mais importante, queremos que alguém confirme o que já sabemos.

Esta poesia tem de servir um propósito claro: tem de ser terapia, catarse, um espelho. A verdade absoluta da existência do poeta. Rupi Kaur di-lo melhor, no seu terceiro livro, homebody (2020): “what a relief/ to discover that/ the aches i thought/ were mine alone/ are also felt by/ so many others”. [que alívio/ descobrir que/ as dores que eu pensava/ serem só minhas/ serem também sentidas/ por tantos outros]

Os seus poetas usam a linguagem quotidiana na forma mais banal e obrigam o leitor a considerá-la arte. É um paradoxo formal, é a desautomatização da perceção mais radical por se anular a si própria, um fio solto na tapeçaria.

O Desafio da Instapoetry

Poder-se-ia argumentar, no entanto, que instapoetry é menos redutível e redutora do que isto. Nas várias tentativas de definição daquilo que constrói a Poética e por sua extensão a Literatura, raramente se evocam palavras como “acessível” como uma característica imanente. Aliás, é comumente defendido que a poesia deve ser precisamente uma oposição a esta aparente acessibilidade. 

Os Formalistas Russos (primeiros teóricos a estudar a Literatura como um objeto de conhecimento) acreditaram veemente no processo de desautomatização da perceção: a Literatura e, por sua vez toda a arte, deveria obscurecer a forma e tornar a linguagem de comunicação numa linguagem estética, que obrigasse o leitor a sentar-se com as palavras que encontrava e digeri-las demoradamente. Esta literariedade cunhada por Jakobson (mais tarde, poeticidade), que distingue a Literatura como um objeto único de conhecimento é o que os poemas de instapoetry desafiam. Estes poetas escrevem por cima da Crítica do Julgamento e da perceção kantiana de arte: a arte serve e cura. Instapoetry tende a focar-se e a exprimir-se de um ponto de vista completamente utilitário.

Não se sabendo exatamente o que é literariedade, pensa-se compreender melhor o que esta não é, ou pelo menos o que não deveria ser. Mas se a poesia, como nas redes sociais se apresenta, pode ser a subversão de tudo o que se considera literário, entraríamos num impasse absoluto ao tentar definir o termo. Instapoets põem à prova, conscientemente ou não, a ideia de que arte não tem de


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