E se o sol morrer? Planeta a orbitar estrela morta mostra o que pode acontecer

20-10-2021

Um exoplaneta gigante a orbitar aquilo que é designado por “anã branca” é considerado pelos cientistas como “inesperado”, porque não é comum que um planeta intacto sobreviva à fase em que as estrelas se transformam em gigantes vermelhas.

O que pode acontecer no sistema solar quando o sol morrer? Um planeta distante como Júpiter a orbitar uma estrela morta, a 6500 anos-luz de distância, perto do centro da Via Láctea, pode ter a resposta.

De acordo com um estudo publicado na revista Nature, esta ligação é “inesperada” porque o exoplaneta gigante gasoso, com uma massa semelhante à de Júpiter, está a orbitar uma anã branca, que é aquilo que resta depois de, na evolução estelar, uma estrela semelhante ao sol se transformar numa gigante vermelha.

Consumindo combustível de hidrogénio, as gigantes vermelhas expandem-se e acabam por engolir os planetas que estão nas proximidades. Depois de perder a sua atmosfera, tudo o que resta é a anã branca, que continua a arrefecer por milhares de milhões de anos.

Mas de que forma é que um planeta intacto consegue sobreviver a esta fase de evolução da anã branca? A resposta foi dada por este novo estudo, que demonstrou que o planeta e a estrela, a 148 milhões de quilómetros de distância entre si, foram formados ao mesmo tempo e que o planeta sobreviveu à morte da estrela. Além disso, a descoberta levou à conclusão de que mais de metade das anãs brancas tem planetas semelhantes na sua órbita.

“Esta evidência confirma que os planetas que orbitam a uma distância grande podem continuar a existir após a morte da sua estrela”, disse Joshua Blackman, principal autor do estudo e investigador de pós-doutoramento em astronomia na Universidade da Tasmânia, na Austrália, num comunicado citado pela CNN.

“Dado que este sistema é equivalente ao nosso próprio sistema solar, isso sugere que Júpiter e Saturno podem sobreviver à fase gigante vermelha do Sol, quando ficar sem combustível nuclear e se autodestruir”, acrescenta.
Qual a relação entre o futuro da Terra e as anãs brancas?

Quando o sol, tal como o conhecemos, se tornar uma gigante vermelha, daqui a milhares de milhões de anos, provavelmente envolverá Mercúrio, Vénus e, talvez, também a Terra.

“O futuro da Terra pode não ser tão otimista porque está muito mais perto do Sol”, disse David Bennett, coautor do estudo e investigador sénior da Universidade de Maryland e do Goddard Space Flight Center da NASA, em comunicado citado pela CNN.

“Se a humanidade quisesse mudar para uma lua de Júpiter ou Saturno antes de o Sol fritar a Terra durante a sua fase supergigante vermelha, ainda permaneceríamos em órbita ao redor do Sol, apesar de não sermos capazes de aguentar o calor do Sol como uma anã branca por muito tempo”, explica.

O planeta semelhante a Júpiter já tinha sido descoberto anteriormente por meio de uma técnica designada de microlente, usada para detetar planetas frios distantes das suas estrelas. Essa mesma técnica pode ser usada para encontrar anãs brancas pequenas e fracas. A microlente ocorre quando uma estrela próxima à Terra se alinha por breves momentos com uma estrela mais distante. A gravidade da estrela mais próxima atua como uma lente de aumento e amplifica a luz da estrela mais distante.

Os cientistas usaram o Observatório WM Keck no Hawai, bem como uma câmara infravermelha próxima para observar a anã branca e o planeta. A anã branca tem 60% da massa do Sol, e o planeta tem cerca de 40% mais massa do que Júpiter.

“Também conseguimos descartar a possibilidade de o planeta estar a orbitar uma estrela de neutrões ou um hospedeiro de buraco negro. Isso significa que o planeta está a orbitar uma estrela morta, uma anã branca”, esclareceu outro do estudo Jean-Philippe Beaulieu, diretor de pesquisa do Institut d’Astrophysique de Paris do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica, em comunicado, também citado pela CNN.
Mais planetas sobreviventes em torno de anãs brancas? Cientistas acreditam que sim

Até agora, apenas planetas gigantes foram detetados em torno das anãs brancas, mas isso não significa que sejam os únicos planetas existentes ao redor dessas estrelas mortas.

“Também deve haver planetas de massa menor a orbitar as anãs brancas”, escreveu Bennett, em declarações citadas pela CNN. “As nossas pesquisas de microlente detetaram números semelhantes de Júpiter e Neptuno, mas somos mais sensíveis a Júpiter. Portanto, descobrimos que os planetas com a massa de Neptuno são cerca de 10 vezes mais comuns do que Júpiter nessas órbitas mais amplas que sobreviverão aos estágios finais da evolução das estrelas”, sublinhou.

“Planetas rochosos menores em órbitas próximas são mais propensos a terem sido destruídos durante a fase de gigante vermelha da evolução da sua estrela hospedeira”, acrescentou Blackman, principal autor do estudo.

Os investigadores vão continuar em busca de exoplanetas sobreviventes a orbitar estrelas mortas. Segundo Bennett, o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, com lançamento previsto para 2026, “conduzirá uma pesquisa de microlente muito mais sensível que deve encontrar muito mais planetas a orbitar anãs brancas”, fornecendo assim aos cientistas uma melhor perceção de quantos são destruídos pela evolução da estrela e quantos sobrevivem.

Nos últimos anos, outros planetas gigantes foram encontrados a orbitar estrelas mortas, incluindo um que está a ser lentamente comido pela sua estrela e outro que orbita perto de uma anã branca.

Embora seja improvável que este planeta, agora descoberto, seja humanamente habitável, outros estudos têm como objetivo a procura de vida em planetas que poderiam orbitar anãs brancas.
(TSF)

Desenvolvido por: Suporte Informatica