Estamos demasiado cansados para os loucos anos 20?

17-10-2021

Dizem que depois da tempestade vem a bonança. De facto, os anos 20 do século passado foram marcados por um clima de loucura e de libertação social, após os horrores da I Guerra Mundial e da gripe pneumónica, que tirou a vida a mais de 50 milhões de pessoas em todo o mundo, entre 1918 e 1920. Dizem, também, que a história tem tendência a repetir-se. Ainda que sem guerra, o mundo deu as boas vindas a 2020 mergulhado na pandemia da COVID-19, que tem provado ser tão desafiante como a anterior, começando a mostrar os seus efeitos a nível social e económico. Com o aumento (e agravamento) de problemas do foro mental, entre os quais o burnout, coloca-se a questão: estamos demasiado cansados para uns novos loucos anos 20?

Para Nicholas A. Christakis, médico, sociólogo e investigador da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, será preciso esperar até 2024 para que os loucos anos 20 deste século se materializem. Em entrevista à TSF, o autor de “Apollo’s Arrow: The Profound and Enduring Impact of Coronavirus on the Way We Live” [“A Flecha de Apolo: O Impacto Profundo e Duradouro da Covid-19 no Nosso Modo de Vida”, em português] salienta que as pandemias são novas apenas para nós, não para a nossa espécie – apesar de contarmos com fatores como as alterações climáticas e a desflorestação, que propiciam o aparecimento de novos patógenos e, consequentemente, de novas pestes. 

Mesmo depois do regresso à normalidade, devido ao avanço da vacinação e a conquista da imunidade de grupo, o especialista considera que “ainda teremos de recuperar do choque social, económico e psicológico”, além do choque epidemiológico. “Depois, lá para 2024, teremos os loucos anos 20 do século XXI, tal como houve loucos anos 20 no século XX, há cem anos”, assegura.

Assim, a procura do sentido da vida, o aumento da religiosidade e a aversão ao risco darão lugar a novas experiências e interações sociais, passando pelo sexo, gastos de dinheiro e diminuição da religiosidade. O sentimento de que estamos a viver algo surreal e inédito é, segundo Nicholas A. Christakis, sinal de “estupidez”, justificando que nada aprendemos com o passado, dada a falta de preparação das democracias mais ricas – incluindo Portugal –, para fenómenos como a COVID-19, já antecipados pelos especialistas.  

Apesar de tudo, o investigador é claro: “As pessoas celebrarão o fim da pandemia. Por essa altura, já estaremos fechados há dois anos em casa. Haverá milhares de formas de gastar o dinheiro. Vamos sair de casa e vamos fazer coisas. Vamos estar na rua todos os dias, vamos gastar dinheiro. Vamos estar tão aliviados por a pandemia ter passado… Isso é o que tipicamente acontece depois das pestes”. Mas será assim tão simples?

O estudo “Saúde Mental em Tempos de Pandemia (SM-COVID19)”, coordenado pelo Departamento de Promoção da Saúde e Prevenção de Doenças Não Transmissíveis do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, em colaboração com o Instituto de Saúde Ambiental da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e com a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, revela que 25% dos participantes apresenta sintomas moderados a graves de ansiedade, depressão e stresse pós-traumático.

Tendo como alvo de investigação a população geral e os profissionais de saúde, o trabalho adianta que “são sobretudo os jovens adultos e as mulheres que apresentam sintomas de ansiedade e de depressão moderada a grave”, destacando que “25.2% da população geral e 32.1% dos profissionais de saúde apresentam sintomas de burnout”. Menor resiliência, dificuldades ao nível do trabalho ou rendimento, assim como na manutenção de estilos de vida e de atividades de lazer são algumas das explicações para este cansaço extremo, além de um menor apoio social ou familiar, preocupações quanto ao futuro após a pandemia e menor capacidade de conciliação entre o trabalho e a família, no caso dos profissionais de saúde.

Estas tendências foram identificadas também no projeto “Burnout and Depression in Portuguese Healthcare Workers during the COVID-19 Pandemic—The Mediating Role of Psychological Resilience”, o segundo o qual mais de metade dos profissionais de saúde inquiridos mostram níveis altos de exaustão relacionada com o trabalho (53.1%), fadiga pessoal (52.5%) e burnout associado ao paciente (35.4%). Desenvolvido em parceria entre o Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (CINTESIS) da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) e o Centro de Investigação e Inovação em Educação (inED) da Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto, o trabalho verificou também que a resiliência e a satisfação com a vida aparentam ter um papel protetor no que toca a depressão e o burnout, ainda que os profissionais de saúde na linha da frente do combate à COVID-19 tenham uma maior predisposição para estas perturbações mentais, devido ao aumento da carga laboral, já anteriormente elevada. 

Ter uma vida além do trabalho é extremamente importante. Hoje em dia apela-se muito à produtividade, mas as organizações devem estar também centradas na saúde mental”.

“Foi encontrada uma relação significativa entre a depressão e todas as dimensões do burnout, o que destaca a importância do problema e da sua prevenção”, diz Ivone Duarte, professora da FMUP, investigadora do CINTESIS, e coordenadora do estudo, ao Shifter. “Estes altos níveis de stresse têm consequências no bem-estar dos indivíduos, podendo levar à fadiga mental, dificuldade de concentração, perda de memória imediata e ansiedade”, além de colocar em causa o processo cuidativo, sublinha. “Ter uma vida além do trabalho é extremamente importante. Hoje em dia apela-se muito à produtividade, mas as organizações devem estar também centradas na saúde mental”.

Já Carla Serrão, professora de Psicologia na Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto, investigadora integrada do inED e coordenadora do estudo, revela que, a curto e médio prazo, podemos “ter quadros inerentes de saúde mental”, desde a depressão, às perturbações do sono. O facto de grande parte da amostra ser constituída por mulheres suporta a tese de que estas “têm maior vulnerabilidade no que toca a saúde mental”, devido aos “diferentes papéis sociais do género e a questões genéticas e biológicas”, que podem exacerbar os fatores de predisposição. A especialista adianta que também as pessoas com menos de 40 anos e com doença crónica apresentam maior risco de desenvolver problemas do foro mental, ainda que “os fatores de proteção possam amortecer os efeitos da pandemia nestes grupos”.

Mesmo cansados e com maior predisposição para doenças mentais, os novos “loucos anos 20” centrar-se-ão, para as investigadoras, na faixa etária dos 18 aos 25 anos, que, como afirma Ivone Duarte, “foi privada de aspetos importantes da construção de identidade”. Assim, a professora refere ser “natural que os adultos emergentes procurem alguma compensação por tudo o que viveram, ou não, no último ano e meio”, ainda que não considere que o fenómeno tenha a mesma dimensão do passado, devido às diferenças políticas, económicas e sociais.“Esta crise pandémica representou um congelamento da procura de sentidos da vida, da celebração das liberdades, e da cultura de exploração, pelo que me parece que este desejo de libertação estará muito mais próximo do que 2024”, acrescenta Carla Serrão, relembrando que, depois de todas as crises, vem o desenvolvimento – em todas as suas formas.

(Shifter)

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