As máquinas estão “muito longe” de serem mais inteligentes (mas muito perto de agir como pessoas)

22-09-2021

A especialista em inteligência artificial Daniela Braga considera que as máquinas estão “muito longe” de substituírem totalmente os humanos ou serem mais inteligentes, mas estão “muito perto” de interagirem como as pessoas.

“Acho que estamos muito longe de que as máquinas nos substituam na maior parte das atividades ou que sejam mais inteligentes do que nós”, afirmou à Lusa Daniela Braga, especialista em inteligência artificial.

Nascida no Porto há 43 anos, Daniela Braga, fundou e dirige a DefinedCrowd, empresa com sede nos Estados Unidos e escritórios em Portugal e no Japão que produz dados de voz, texto e imagem para sistemas de inteligência artificial e aprendizagem automática.

A empreendedora, que começou a carreira na área da linguística e engenharia, integra o grupo de trabalho, para o qual foi nomeada por Joe Biden em junho, que vai definir a estratégia para a inteligência artificial nos Estados Unidos.

Um dos objetivos do grupo de trabalho, que junta académicos e empresários, é fomentar a literacia em inteligência artificial, “desmistificar o medo em relação à singularidade tecnológica”, à ideia de que “as máquinas vão tomar conta do mundo”, nas palavras da empresária, que tem dupla nacionalidade portuguesa e norte-americana.

Daniela Braga entende que as máquinas estão “pelo menos 30 a 40 anos” de poderem executar “atividades mais evoluídas do que as rotineiras, com pouca capacidade cognitiva”.

A empresária defende que as máquinas devem substituir as pessoas “nas atividades rotineiras, mais braçais, que implicam pouca atividade cognitiva“, dando como exemplo a condução autónoma de autocarros ou camiões.

Para a especialista, no entanto, está-se “mais perto” de uma interação com máquinas semelhante à que existe entre humanos. “Estamos mais perto, e estamos tão perto que agora é quase indistinguível uma voz sintética de uma voz real”, apontou.

Um exemplo de uma “interação perfeita” homem-máquina, para Daniela Braga, é um computador responder a uma questão e depois a uma nova questão suscitada pela resposta anterior sem que a pessoa tenha de ligar para um número de telefone de apoio para resolver um problema em mãos.

Quanto à possibilidade de os computadores poderem agir de forma inteligente, exibir um comportamento de um ser humano em idêntica situação, Daniela Braga respondeu com um “não”, por enquanto.

“Neste momento, o computador só responde a situações mais ou menos validadas“, frisou, exemplificando que, num cenário de guerra, em que “várias coisas” imprevisíveis “estão a acontecer”, um computador não consegue substituir um piloto no ar na tomada de decisões.

No grupo de trabalho para a inteligência artificial criado nos Estados Unidos pela administração do Presidente Joe Biden, ao qual os seus membros terão de apresentar um relatório preliminar em maio de 2022, Daniela Braga vai “ajudar a que as máquinas tenham acesso a conhecimento com mais confiança e com mais qualidade“.

Na DefinedCrowd, que tem “clientes de topo na produção de inteligência artificial à escala mundial”, como a Microsoft, onde trabalhou, são produzidos “dados artificialmente para cérebros artificiais”.

“Enquanto o ‘software’ é programado com regras e códigos, a inteligência artificial é treinada com dados“, assinalou Daniela Braga, “uma das poucas mulheres a liderar empresas de inteligência artificial”.

Formada em Linguística Aplicada e Tecnologia do Discurso, a especialista explicou que os dados “são o alimento” dos sistemas de inteligência artificial, que “só conseguem decidir artificialmente, simulando as decisões humanas, se tiverem acesso a muitos dados de treino”.

“Assim como os nossos cérebros são treinados com dados, que são recebidos na forma de experiências, de aprendizagens na escola, de inputs  sensoriais ao longo da vida, nos computadores esses inputs sensoriais são os dados“, acrescentou.

Uma das funções do grupo de trabalho para o qual Daniela Braga foi nomeada em junho é “facilitar o acesso” a dados de inteligência artificial por parte de instituições e empresas norte-americanas, que, no futuro, passarão a ter um departamento vocacionado para esta área, tal como hoje têm para a informática.

Estaremos ainda a 30 ou 40 anos da singularidade? O futuro se encarregará de responder, e provavelmente será um computador a dar a resposta.

(ZAP)

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