Nos bastidores da censura da ByteDance na China

21-02-2021

Um ex-funcionário da ByteDance levanta o véu sobre como funciona a vasta máquina de censura chinesa que monitoriza todos os serviços no país.

A China tornou-se num país tão “comum” nas últimas décadas, que por vezes até nos esquecemos que por lá continuam a imperar regras bem diferentes das nossas. A apertada censura torna-se particularmente relevante para nós, enquanto país que apenas se conseguiu livrar disso há menos de meio-século, podendo o caso chinês servir de exemplo do tipo de coisas que poderíamos ter que enfrentar neste momento, se não tivesse havido o 25 de Abril.

A ByteDance pode não ser imediatamente reconhecida por muitas pessoas no ocidente, mas passa a sê-lo quando se explica que é a empresa por trás do TikTok (que na China tem uma versão chamada Douyin) e outras apps. E, neste caso, temos o relato de alguém que trabalhou nesta empresa, na secção responsável pela moderação e censura de conteúdos.

Para se ter uma ideia do que isto significa, para uma empresa como a ByteDance representa ter 20 mil pessoas (!) dedicadas exclusivamente à moderação, responsáveis por eliminar todo o tipo de conteúdos que sejam considerados “indesejados” pelo governo, não só para os temas políticos - que os chineses já se habituaram a auto-censurar, por saberem que os pode colocar em sarilhos - como para coisas consideradas socialmente inaceitáveis (como pornografia, roupa ou comportamentos demasiado provocantes, etc.).

Existe um serviço governamental que emite centenas de directivas por dia sobre a forma como se devem lidar com certos tópicos, que se podem aplicar não só aos assuntos mais relevantes da actualidade mas também implicar que se eliminem conteúdos já publicados anteriormente. O serviço não deixa escapar sequer emissões em livestream, que contam com ferramentas de transcrição automática para texto, e sinalizando os moderadores automaticamente no caso de serem detectadas palavras problemáticas - podendo levar à suspensão da emissão, ou até à eliminação completa da conta, ficando a ocorrência associada ao utilizador / cidadão. Refere ainda terem havido pedidos para que fossem criadas ferramentas que permitissem detectar certos dialectos, como o Uyghur, e encerrassem automaticamente o livestream, sem que sequer fosse necessária intervenção de um moderador.

… Enfim, um triste lado negro de um país que se tornou no produtor do mundo, e que deve servir de lembrança constante do verdadeiro valor que devemos dar às liberdades que tomamos por garantidas, mas que na realidade foram conquistadas a muito custo.
(Ptnik)

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