TikTok, rede social em ascensão, é centro de polémica pelas regras de moderação

3-10-2019

Se tens mais de 18 anos e não tens qualquer tipo de relação com pessoas nesta faixa etária é provável que nunca tenhas ouvido falar do TikTok nem tenhas reparado na marca de água dos virais que vindos dessa plataforma invadem as redes sociais. Criado na China em 2016 e conhecido como Douyin (抖音, em chinês), o TikTok nasceu como Musical.ly e foi com esse nome que se tornou num enorme sucesso entre os mais jovens. Apenas um ano depois, o Musical.ly foi comprado pela chinesa ByteDance por cerca de 800 milhões de dólares e, outro ano depois, a nova dona mudou-lhe o nome para TikTok.

O propósito da aplicação mantive-se praticamente inalterado e a sua rota de crescimento imaculada – assim, o TikTok ocupou um espaço no mundo das redes sociais, focando-se nos vídeos de curta duração (estilo Vine) e na sua relação estreita com a música (moda do lip sync). Tal como todas as outras aplicações, o TikTok gozou do benefício da dúvida com que todas as aplicações entram no mercado e conquistam utilizadores. Com uma enorme máquina de marketing por trás, e com pouca atenção dada pelos media, ia conquistando os mais novos, viral a viral, vídeo a vídeo. Entretanto, na última semana, a aplicação tornou-se alvo de críticas na imprensa internacional, que denuncia as suas políticas de utilização e privacidade como uma extensão da vontade do regime chinês.

Foi o jornal britânico The Guardian o primeiro a avançar com a denúncia de que as políticas da aplicação estariam a mudar para termos e condições mais agradáveis aos olhos do regime chinês. Em causa, estão instruções explícitas dadas aos moderadores da plataforma para que assimilem, nos seus critérios de moderação, a política externa chinesa, censurando, por exemplo, conteúdo relacionado com o Tiananmen Square e a independência do Tibete. Contudo, o jornal The Guardian não foi o primeiro a detectar algo estranho na aplicação. Já este mês, o Washington Post chamava à atenção para a falta de resultados ao pesquisar “Hong Kong” na aplicação detida pela empresa chinesa – na peça, o jornal norte-americano mostrava como a aplicação está em crescimento nos EUA, mesmo mantendo estas guidelines altamente políticas de um modo discreto (ou secreto).

A merecer críticas estão não só as regras já mencionadas mas também outras que, segundo o jornal britânico, visam impedir ou minimizar a circulação de certo tipo de conteúdo. É que a censura não acontece só na China, as políticas da app censuram ou banem de forma definitiva determinado conteúdo em determinadas áreas e países. Na Turquia, por exemplo, conteúdo que contenha menções a figuras ou ideias religiosas não-muçulmanas e todo o conteúdo LGBTQ foi proibido. Isso inclui qualquer representação ou menção a Deus, Jesus ou anjos, Ghandi, e imagens com pessoas do mesmo sexo, mesmo que não sexuais, como dois homens de mãos dadas. No limite, há registo de proibição de conteúdo que apenas mostrava o uso adulto de álcool.

Este caso é mais um que nos permite um olhar para dentro das lógicas de moderação das redes sociais e, tal como os outros em que os visados eram plataformas como Facebook ou Twitter, revela a falência e o enviesamento das estratégias levadas a cabo pelas empresas tecnológicas. Longe da ilusão provocada pela expansão global destes serviços e empresas, as suas políticas de privacidade continuam, em muitos dos casos, a ser extensões do enquadramento legal em que se criaram, contrastando com o sonho commumente citado de uma internet que, por ser global, possa ser inteiramente livre e longe da influência das gigantes estatais.

Recorde-se que, ainda recentemente, aqui escrevemos sobre um conjunto de suspensões promovido pelo Twitter a contas ligadas ao Governo e a órgãos de comunicação social cubanos.

Em reacção às publicações feitas na imprensa internacional, os responsáveis do TikTok foram céleres a responder, dizendo que as políticas de utilização criticadas já não estão em vigor. Outro ponto que mereceu críticas foi a referência ao facto de que os moderadores, em caso de dúvidas, deveriam tratar os utilizadores como adultos, uma regra que a empresa garante já ter mudado depois de se aperceber das críticas.
(Shifter)

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