A Internet é um lugar estranho… e repleto de fenómenos

17-05-2019

A 17 de maio, assinala-se o Dia Mundial da Internet. Se, por um lado, o acesso à rede abriu todo um novo mundo de informação, ao alcance de quase todos, por outro também veio sublinhar que é um lugar para todos se expressarem – até com modas e questões peculiares, que ultrapassam fronteiras.

Há muito que a internet já não é só um espaço para ter acesso a informação em tempo real ou comunicar. Com a democratização do acesso às plataformas digitais e com a informação a circular bem mais depressa, fruto da tecnologia, a internet também é um espaço onde se ditam modas e tendências, que se desvanecem tão depressa quanto aparecem.

Momo, ASMR, Mukbang, Unboxing ou, recuando no tempo, ‘The Dress’ são conceitos que podem não estar no vocabulário de todos os utilizadores da internet, mas que, em conjunto, somam milhares de milhões de visualizações, movimentam caracteres em publicações online, geram controvérsia e discussão ou, em alguns casos, até se revelam uma indústria de milhões, como é o caso do ASMR.

Uma pesquisa rápida no Google Trends, que mostra as tendências de pesquisa ao longo do tempo, onde é possível comparar termos de pesquisa, revela o crescimento de um destes fenómenos: o ASMR. A sigla significa Autonomous Sensory Meridian Response ou, em português, Resposta Sensorial Autónoma do Meridiano – um dos maiores exemplos da peculiar capacidade da internet.

Há várias justificações para o boom deste conceito, mas a mais apontada é a capacidade para ajudar a relaxar. De fenómeno de nicho ao ‘mainstream’, aponta a BBC, por exemplo, num mundo onde uma grande parte dos vídeos se caracteriza por sussurros e sons peculiares, que podem ser ‘triggers’ – “gatilhos” que motivam uma resposta, muitas vezes associadas a um sentimento de relaxamento.

Hoje em dia, basta pesquisar pelo conceito no Google para rapidamente ser bombardeado com milhões de resultados e sugestões de vídeos. “ASMR: depilação de pele no Kiwi” ou “ASMR – 11 minutos intensos de triggers” são alguns dos exemplos mais recentes. Outra questão tão popular que até surge como uma sugestão nos motores de busca? Quanto ganha um artista de ASMR. A estimativa é a de que a autora do canal mais popular, GentleWhispering, consiga ganhar pelo menos 130 mil dólares por ano, aponta a Business Insider, com dados de 2017. Dado a crescente popularidade deste nicho, é expectável que os valores sejam bem mais elevados hoje.

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Dados de fevereiro deste ano, apontam que só nos Estados Unidos as pesquisas no YouTube pelo termo ASMR registaram números na ordem dos 2,9 milhões de pesquisas mensais. Mas o termo ultrapassa fronteiras. Outras localizações onde os vídeos de relaxamento são populares fora dos Estados Unidos? Na Rússia, Austrália, China, Canadá ou Suécia.

Em Portugal, as pesquisas pelo conceito de unboxing, onde se vê alguém a desembrulhar um produto, levam a melhor com 54% versus 45% para ASMR, aponta a ferramenta de comparação do Google Trends (dados desde 2004). No entanto, se se alterar a métrica para os últimos doze meses, é claro quem leva a melhor nesta batalha: as pesquisas por ASMR valem 74% nesta comparação.

E, como seria de esperar, há figuras que emergem deste fenómeno. Algumas, como é o caso do canal Life With MaK, são adolescentes com verdadeiras legiões de seguidores. No total, a jovem youtuber de 13 anos tem mais de 1,5 milhões de seguidores, que já a viram a beber refrigerantes perante um microfone ou, no vídeo mais popular, a comer favos de mel crus.

Não é só no ASMR que os vídeos com comida são populares. Vinda da Coreia do Sul, chegou há uns anos a tendência Mukbang, com outro conceito peculiar – ver pessoas a empanturrarem-se com banquetes improvisados ou a ingerir comida estranha. É bem menos popular no ocidente, é certo, mas já começa a conquistar fãs.

“Yanny ou lareul?” ou o eterno caso do vestido

Mas nem só de vídeos de relaxamento vive a internet. Pelo meio, este ‘lugar estranho’ ainda consegue criar fenómenos virais, que geram discussão em quase todo o lado. Tudo começou por uma simples fotografia de um vestido, em 2015. Poucos dias depois, a pergunta enlouquecia a internet – o vestido é azul e preto ou dourado e branco?

What Colors Are This Dress?http://t.co/jvesuCjEzE pic.twitter.com/Z81okr8XK8

— BuzzFeed (@BuzzFeed) February 27, 2015

A fotografia original, captada na Escócia, rapidamente deu a volta ao mundo e não houve quem não tivesse opinião sobre as cores do vestido. No ano passado, repetia-se a façanha, mas desta vez com recurso à audição. No site Vocabulary.com, o termo ‘Laurel’ deixava muita gente confusa com a entrada de som onde era possível ouvir como soa a palavra.

A discussão foi tanto que a ciência teve de entrar em ação e explicar o caso: afinal, era normal diferentes pessoas ouvirem sons diferentes, já que a palavra tinha uma frequência ambígua.
Um arrufo de amigos que já custou três milhões de seguidores

Com o surgimento de celebridades vindas das redes sociais, criou-se o mundo dos influencers. Primeiro nos blogues, depois YouTube, que surgiu há 14 anos, mais tarde no Twitter e no Instagram… a verdade é que é possível acompanhar a vida de alguém à distância, mesmo que nunca se tenha conhecido a pessoa em questão.

Presentes em várias plataformas, cria-se quase um sentimento de familiaridade – que também serve para se escolher um lado em ‘discussões’ públicas. O caso mais recente é o dos youtubers Tati Westbrook e James Charles, conhecidos do mundo da maquilhagem. Amigos há alguns anos, juntos somam milhões de visualizações e têm campanhas com grandes marcas de cosmética. Charles até se tornou na primeira cara masculina da marca norte-americana de maquilhagem CoverGirl.

Outro exemplo da internet como um lugar estranho? Um arrufo entre os dois motivou um vídeo de mais de 40 minutos, intitulado “Bye, Sister” carregado no canal de Tati Westbrook, onde acusa Charles de comportamentos agressivos e de deslealdade.

Qual é o resultado? A internet a assistir a um arrufo e a ter opinião sobre uma questão que, até há alguns anos, seria algo da esfera privada. No Twitter, Charles já terá perdido 200 mil seguidores, aponta a Tagger Media, mas é no YouTube que se sente a maior quebra: nesta quinta-feira, o empreendedor já perdeu cerca de 3 milhões de subscritores.

Perdem uns, ganham outros nesta peculiar esfera da internet: o site The Verge aponta que quem está a ganhar mais com visualizações – e consequentes receitas – são os restantes youtubers interessados em comentar o caso. O canal DramaAlert já arrecadou cinco milhões de visualizações num dos vídeos onde explica o assunto – monetizados com anúncios, claro.

Vários anos depois da invenção da internet, muita coisa mudou – nem que seja pela propagação destes e de outros fenómenos, a uma velocidade bem mais rápida. Quem diria há uns anos que muito do tráfego da internet seria gasto a ver pessoas a comer, amassar latas de refrigerantes ou a desempacotar coisas?
(DN_insider)

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