Censura das máquinas está a ameaçar liberdade de expressão

28-05-2018

Inteligência artificial usada em países autoritários como a China para censurar a internet e as redes sociais

A inteligência artificial (IA) está a criar muito menos empregos do que aqueles que destrói. Há mesmo investigadores de IA, como Luís Moniz Pereira, da Universidade Nova de Lisboa, a afirmar que, se não forem tomadas medidas, “o cenário tendencial é chegarmos a um ponto em que a criação de emprego terá um único objetivo: ensinar máquinas que provocam desemprego”. Tudo porque as máquinas estão a entrar em áreas cognitivas do ser humano.

Mas há uma nova ameaça à criação de emprego e à liberdade de expressão. Está a emergir em países autoritários como a China e a automatizar as tarefas de uma profissão muito recente: censor da internet e das redes sociais. Os censores humanos estão a ser substituídos por uma componente da inteligência artificial conhecida por machine learning (aprendizagem máquina), devido ao crescimento explosivo dos utilizadores chineses. Segundo o “Financial Times”, entre 2012 e 2017, o número de utilizadores da internet móvel aumentou 79% na China, passando de 420 para 753 milhões (57% da população).

A contratação maciça de censores pelas empresas tecnológicas chinesas, para que estas possam cumprir a legislação em vigor, não chega face ao boom da população online. E a pressão das autoridades é grande. Por exemplo, a empresa que comercializa a aplicação móvel de notícias mais popular na China, a Toutiao, foi forçada a contratar mais 4000 censores para filtrarem as notícias, que se juntaram aos 6000 que já tinha, devido às críticas das autoridades reguladoras aos seus conteúdos. E a iQiyi, uma plataforma de video-streaming que lidera o mercado, optou pela machine learning para conseguir dar resposta às exigências da lei, evitando ao mesmo tempo os custos relacionados com a contratação de centenas de profissionais de censura. Os números falam por si: entre 2014 e 2017, os vídeos na sua plataforma cresceram 20 vezes, mas a quantidade de censores apenas duplicou, passando de 250 para 500.

No entanto, há limitações a este automatismo: as máquinas são muito boas a reconhecer conteúdos sexuais, mas não são tão eficazes a filtrar informações políticas ou culturais sensíveis, porque os seus autores usam metáforas para enganar a censura. E este truque só pode ser detetado com a ajuda da inteligência e perspicácia dos censores humanos.
Os algoritmos de Zuckerberg

A censura dos países autoritários que usam inteligência artificial torna-se mais eficaz e abrangente. Surpreende, por isso, que num país democrático como os EUA, Mark Zuckerberg, presidente executivo do Facebook, uma das maiores empresas tecnológicas do mundo, tenha falado tantas vezes de censura em abril na audição no Senado, a propósito da privacidade e do escândalo da empresa Cambridge Analytica, que usou de forma abusiva dados pessoais de 80 milhões de utilizadores daquela rede social para fins políticos e comerciais.

A Fundação Fronteira Eletrónica (Electronic Frontier Foundation) afirmou nessa altura que nos dois dias de audição “houve um facto que ficou bem claro: Zuckerberg quer usar a inteligência artificial para gerir a censura de discursos de ódio, notícias falsas, interferências em eleições, textos racistas e discriminatórios e mensagens terroristas”. Com efeito, os planos para serem usados algoritmos de IA foram discutidos várias vezes na audição no Senado. A IA foi mencionada pelo presidente do Facebook “pelo menos 30 vezes” e a Fundação alerta que, “por razões óbvias, isto deve preocupar os ativistas das liberdades cívicas”. A machine learning “deverá ser o futuro árbitro da liberdade de expressão, mas serão os programadores das grandes empresas e do Governo que vão definir os seus protocolos. E, como já sabemos, os direitos dos cidadãos e os direitos dos tecnocratas não são os mesmos”.
(Jornal Expresso)

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